Procura-se um argumento baixista

Por Arnaldo Luiz Corrêa – gestor de riscos em commodities agrícolas, especializado no setor sucroalcooleiro, e diretor da Archer Consulting.

Na longa e tortuosa estrada que nos conduz até o início da próxima safra de cana no Centro-Sul, em maio de 2017, a principal pedra no caminho em forma de dúvida com a qual o mercado se depara é sobre quanto mais os preços do açúcar na bolsa de futuros em NY podem subir?

Muitos dos participantes do Jantar do Açúcar em Londres, ocorrido na quinta-feira passada, trazem em sua bagagem na viagem de retorno a seus países de origem, a sensação de que os preços do açúcar no mercado futuro de NY ainda não estressaram em toda sua intensidade a falta de matéria prima (cana) que parece dar o tom no humor do mercado nos meses que virão.

Ainda é cedo para as previsões de safra da 2017/2018, mas existe um razoável consenso de que ela deverá ser inferior à safra corrente e que também mais açúcar deverá ser produzido com os recursos financeiros que as usinas e destilarias estão investindo para aumentar a capacidade de produção de açúcar. Com o hidratado e o anidro saindo a preços que equivalem ao açúcar bruto na bolsa negociado com descontos de 600-700 pontos em relação à NY, uma conta muito breve mostra que o investimento se paga em menos de 24 meses.

A renovação do canavial abaixo da média, o menor rendimento da cana devido ao clima e o envelhecimento médio da lavoura, colocam em xeque o número de toneladas que o Centro-Sul vai moer a partir do ano que vem. Menos de 600 milhões?

Então, tudo parece apontar para preços mais altos em NY, certo? Os fundamentos do açúcar continuam fortes. Não há viva alma que acreditava em meados de abril/2016 (açúcar a 15 centavos de dólar por libra-peso) que o mercado pudesse chegar onde chegou. Dissemos aqui naquele momento, que acreditávamos que o março/2017 pudesse chegar a 18 centavos de dólar por libra-peso. Recebemos e-mails jocosos chamando-nos de “os últimos altistas ainda vivos”. Pois então, 18 centavos de dólar por libra-peso, hoje, seria o sonho dourado daquelas tradings que permaneceram na contramão desta subida e grandes compradores que devotadamente acreditavam que iriam comprar açúcar bruto a 11 centavos de dólar por libra-peso alguns meses depois (hoje podem compram metade disso).

Agora, robustos 800 pontos de alta depois, todo mundo virou altista e ficou mais fácil caçar Pokémon em Trafalgar Square do que encontrar um fator baixista para esse mercado.

Olhando com a isenção e com a disciplina que sempre me nortearam para a tomada de decisões estratégicas, aprendi que ninguém quebra com lucro no bolso. Grande parte das usinas do Centro-Sul com notável capacidade de gestão possuem um custo de produção de açúcar em torno de 13.25 centavos de dólar por libra-peso posto usina, sem custo financeiro. Grosso modo, isso equivale a R$ 1.000-1.050 por tonelada de custo FOB Santos vis-à-vis um preço de fechamento (desta sexta-feira) de R$ 1.700 por tonelada. Não dá para dizer que alguém vai deixar de fazer fixação a um nível como esse.

As exceções são as usinas com endividamento em dólares. Essas, sem dúvida, devem esperar pois os preços em centavos de dólar por libra-peso podem subir. Mas, aquelas empresas que pensam em reais por tonelada não devem se apaixonar pelo mercado. Explico: com a melhora do quadro político e das perspectivas econômicas e consequente entrada de capital estrangeiro, as chances são grandes de que o real se valorize em relação ao dólar. O fechamento do vencimento março/2017 hoje, negociado a 23.42 centavos de dólar por libra-peso e com o real negociando a 3.2260, a fixação em reais é de R$ 1.736 por tonelada (embora ainda corra o risco de basis). Caso o real se valorize até 3,1000 para o ano seguinte, baseando-se nos meses de vencimento na bolsa maio, julho e outubro de 2017, para a usina ter o mesmo nível de fixação em reais, esses meses de vencimento, cujos níveis de fechamento nesta sexta-feira foram de 22.63, 21.82 e 21.19 centavos de dólar por libra-peso, respectivamente, precisarão se valorizar em 175, 250 e 325 pontos para permitirem o mesmo nível de fixação em reais de hoje.

Isso é altista ou baixista? Olha só, os valores em centavos de dólar por libra-peso teriam em tese que subir apenas para proporcionarem o mesmo valor em reais por tonelada. Isso coloca um teto na fixação em reais por tonelada, ou pelo menos a deixa muito menos flexível. Em resumo: o mercado de açúcar é altista em centavos de dólar por libra-peso e neutro para ligeiramente altista em reais por tonelada.

O etanol a ser produzido no Centro-Sul no próximo ano não será suficiente para a demanda de combustíveis (ciclo Otto) que estamos prevendo para 2017. Ainda mais se houver redução do preço de combustíveis pela Petrobrás para equalizar os preços internos com o mercado internacional. O etanol terá que subir dos atuais descontos para fazer frente ao aumento de produção de açúcar por parte das usinas para o ano que vem. Ou seja, acredito que se houver mudanças significativas de preço, eles poderão vir não de um acréscimo do preço do açúcar em reais por tonelada, mas de uma significativa melhora de preço do etanol internamente.

Petróleo abaixo de 50 dólares por barril muda a estrutura acima.