Prepare-se para dias chuvosos

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Por Arnaldo Luiz Corrêa – gestor de riscos em commodities agrícolas, especializado no setor sucroalcooleiro, e diretor da Archer Consulting.

O contrato de açúcar na bolsa de NY com vencimento para março/2017 encerrou a semana cotado a 22.16 centavos de dólar por libra-peso. Essa foi uma queda de 55 pontos em relação ao fechamento da semana anterior. 12 dólares por tonelada de encolhimento no preço. Os demais meses apresentaram quedas menores, começando com 45 até 7 pontos, ou de 10 a 1,50 dólares por tonelada.

Parece que o mercado de açúcar está encapsulado num intervalo de preços entre 22 e 24 centavos de dólar por libra-peso já há algum tempo. Entre a máxima negociada no vencimento março de 2017, de 23.90 centavos de dólar por libra-peso ocorrida em 6 de outubro até a mínima ocorrida no pregão desta sexta-feira de 22.12 centavos de dólar por libra-peso, vimos uma queda de 7.50% em apenas dezessete sessões.

Ao mesmo tempo, estamos vendo as médias de 50, 100 e 200 dias dos preços de fechamento de NY em respectivamente 21.85, 20.95 e 18.54 centavos de dólar por libra-peso enquanto a volatilidade anualizada que era de 34.5% há um mês, hoje está em 28%. Isso tudo para dizer que o marasmo do mercado é visível, que os descontos no mercado físico de exportação demonstram isso, e que os fundos podem estar sentindo (ou quem sabe se cansando) que existe uma resistência ao redor de 23-24 centavos de dólar por libra-peso.

Prepare-se para o pior se você faz parte do grupo de usinas que ainda não fixou o preço do açúcar (em reais) para a safra 2017/2018. Caso o mercado penetre no nível da média de 50 dias – 21.85 centavos de dólar por libra-peso – os fundos podem acabar com a brincadeira e simplesmente botar a grana que estão ganhando no bolso, estimada pelo mercado em “meros” dois bilhõezinhos de dólares.

Meu palpite, sem o menor suporte científico, é que caso os fundos venham a liquidar parcialmente sua enorme posição comprada, podemos ver o mercado visitando os 19 centavos de dólar por libra-peso novamente. Os compradores industriais, principalmente aqueles do mercado interno, podem sorrir até mesmo antes do Natal, quem sabe na semana de eleições presidenciais nos EUA. O açúcar em reais por tonelada despencou de R$ 1.760 para R$ 1.610 em pouco mais de três semanas. Acho que isso acende uma luz amarela. Não se apaixone pelo mercado que ele vai te trair.

Onde essa análise pode estar errada? Bem, uma breve espionada na sazonalidade dos preços do açúcar em NY demonstra que os níveis mais elevados observados nos últimos dezesseis anos ocorrem invariavelmente em janeiro e fevereiro. Isto é, olhando o histórico parece haver – em tese – ainda espaço para que NY, isto é, os preços em centavos de dólar por libra-peso, possam ainda elevar-se mais.

Assim, para quem tem endividamento pesado em dólares, a espera por preços melhores pode compensar, ainda que o teto parece estar muito próximo. Para quem tem pouco ou nenhum endividamento em dólares já teria que pensar em reais por tonelada há muito tempo.

Mas em reais, sou forçado a admitir que acho bem difícil que os preços consigam superar os R$ 1,750 vistos recentemente. Para manter os mesmos R$ 1.610 por tonelada de hoje, caso o câmbio atinja o nível de 3,0000 que muitos economistas apostam que será a cotação do real para o início de 2017, o açúcar em NY vai precisar negociar a 23.35 centavos de dólar por libra-peso, 120 pontos acima do nível de hoje.

Agora a imprensa divulga trabalho científico dando conta que o açúcar é o grande vilão dos vilões nos problemas de saúde. Obesidade, colesterol e até demência são o resultado de quem consome o produto. Já vimos no passado o café sendo o vilão dos problemas do coração, fato que foi desmentido anos depois. Depois foi a vez do ovo ser o grande vilão, também devidamente descartado. Agora, o açúcar “causando” até demência.  Na recente Conferência DATAGRO ocorrida na semana retrasada, um painel tratou do tema com apresentações muito interessantes do presidente da ISO, José Orive e Roberta Re, Diretora Geral da WSRO. Uma pergunta permanece no ar após essas “pesquisas científicas”. Quem as financia para que cheguem a essas conclusões? É só seguir o dinheiro e a gente encontra quem financia e com quais propósitos esses estudos são feitos.

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