*Opinião: Dupla personalidade

  • Arnaldo Luiz Corrêa

Por Arnaldo Luiz Corrêa – gestor de riscos em commodities agrícolas, especializado no setor sucroalcooleiro, e diretor da Archer Consulting.

Bingo! Como comentávamos a semana passada o mercado estava próximo de uma acareação entre o Dr. Jekyll do longo prazo e o Mr. Hyde do curto prazo, o primeiro mostrando um lado altista que se contrapunha ao cenário baixista do curto prazo. Um estranho caso de múltipla personalidade como o dos personagens de Robert Louis Stevenson acima citados.

O começo de safra de cana bastante vigoroso no Centro-Sul cria uma expectativa no mercado de que tudo está bem e continuará assim para todo o sempre. Os fundos foram construindo uma imensa posição comprada que chegou ao recorde de 234,000 lotes, segundo os dados divulgados pelo CFTC com base na posição em aberto da última terça-feira, e devem ter liquidado parte delas no colapso de quinta-feira.

O mercado futuro acabou encerrando a semana com o vencimento julho/2016 cotado a 15.74 centavos de dólar por libra-peso, uma queda de 58 pontos em relação ao fechamento da semana anterior, ou aproximadamente 12.75 dólares por tonelada. Todos os meses fecharam com variação negativa pesando mais os vencimentos mais curtos, que tiveram quedas entre 8 e 11 dólares por tonelada enquanto os vencimentos mais longos (maio de 2017 em diante) tiveram quedas entre 4 e 6 dólares por tonelada.

Foi uma semana de muita oscilação, com um intervalo de 125 pontos entre a mínima e a máxima e o prêmio das opções refletindo uma volatilidade maior em relação à semana anterior em cerca de 1.6%. Ou seja, os participantes do mercado pagam mais para se proteger porque percebem um risco maior de oscilação nas cotações. Foi a maior oscilação numa semana desde a liquidação dos fundos no final de fevereiro passado quando o mercado teve um intervalo de preços de 199 pontos.

Para quem usa opções como substituição ao hedge com futuros de maneira adequada (usando o delta hedging e observando e controlando as gregas), tem a oportunidade de embolsar uma bela porção dos 15 dólares por tonelada de valor tempo que estão “disponíveis” nas opções no dinheiro (aquelas cujo preço de exercício é próximo ao mercado) para o vencimento julho/2016. É muito dinheiro para ser ignorado pelos gestores de risco. O que sempre ouço nas empresas é que “ah, opções é muito arriscado”, “controlar derivativos é muito complicado”, ou “ah isso traz um problema para a controladoria”, e outras razões. Realmente, ganhar dinheiro com disciplina dá muito trabalho. Perder com operações mal estruturadas é muito mais fácil.

Mesmo com a queda de preços na semana em quase 13 dólares por tonelada, o fechamento em reais teve uma queda pequena: R$ 1,265 por tonelada contra R$ 1,275 na semana passada. São esses detalhes que fazem diferença na trajetória de preços.

Será que o mercado se recupera na próxima semana? Bem, os fundos estão muito comprados e nunca se sabe em que momento (nível) as vendas acionadas por sistemas de computador podem entrar em cena e fazer com o mercado. Acredito que apenas fatores exógenos ao açúcar podem contribuir para a queda de preços. Por exemplo, uma eventual queda do barril do petróleo que prejudica a arbitragem do etanol internamente. É muito importante lembrar que o novo governo – que deve assumir na sexta-feira após o Senado afastar a presidente Dilma – tentará manter o real mais desvalorizado para aumentar as exportações e isso pode trazer pressão para o açúcar. Uma taxa de 3.6500-3.7000 mantendo os valores em reais por tonelada constantes (R$ 1,250) pode derrubar o mercado em NY mais 100 pontos (para 14.80 centavos de dólar por libra-peso, aproximadamente). Esta é a maior bandeira baixista tremulando no campo de jogo.

No entanto, quedas acentuadas próximas desse nível (14.80) seriam uma excelente oportunidade de compra visando o segundo semestre, ou mais conservadoramente, o último trimestre de 2016, pois até lá teremos um quadro mais realista da disponibilidade de açúcar no mundo.

Nos últimos doze meses a moeda brasileira se desvalorizou 14% em relação ao dólar. Tailândia e Índia tiveram desvalorização frente à moeda americana de 7% e 5% respectivamente. Portanto o custo de produção do Brasil (Centro-Sul) continua sendo muito menor do que seus competidores diretos. Na Tailândia, nossa estimativa de custo na usina é de 15.43 centavos de dólar por libra-peso enquanto na Índia é de 25,53 centavos de dólar por libra-peso. No Centro-Sul do Brasil, o custo na usina, pelos cálculos da Archer é de R$ 51,59 por saca, pelos menos 270 pontos mais barato do que na Tailândia.

O Brasil vai começar a parar de piorar a partir da próxima semana. Não é muito, mas é o que temos para hoje. Livrar-se de Dilma, de Lula e do PT já é um grande alento. Muito precisará ser feito ainda para que o país seja colocado de volta nos trilhos do desenvolvimento, da ética e dos valores perdidos ao longo de 13 anos de governo dessa súcia. Ainda tem muito bandido no Congresso Nacional e a faxina apenas começou. Lula, finalmente denunciado pelo Procurador Geral da República, como o chefe da quadrilha que junto com vários políticos, empresas e empreiteiras saqueou o Brasil com seu projeto de poder, acabou. Podem escrever o seu obituário. Aguardemos o grande momento de júbilo nacional quando assistirmos esse grande farsante ser conduzido para atrás das grades juntamente com todos da sua corriola infame. Haja cadeia para tanto bandido.

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