Melhor prevenir…

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Por Arnaldo Luiz Corrêa – gestor de riscos em commodities agrícolas, especializado no setor sucroalcooleiro, e diretor da Archer Consulting.

Aumenta a inquietação entre os participantes do mercado a respeito da trajetória que o preço do açúcar no mercado internacional poderá tomar quando os fundos começarem a liquidar suas massivas posições compradas. A despeito dos fundamentos do açúcar se mostrarem construtivos e manterem o mesmo clima favorável para o próximo ano, em face ao tamanho da safra de cana do Centro-Sul que, de modo incontroverso, aponta para menos de 600 milhões de toneladas, não se pode cair no autoengano.

O que está sobre a mesa é a difícil decisão sobre o momento certo de fixar preços. Ela vem devidamente acompanhada do inseparável receio de que se o mercado cair e nenhuma fixação for feita, restará a sensação de perda do que poderia ter sido uma chance de ouro para abastecer o caixa da empresa, misturado com outro temor oposto de que, tendo fixado os preços e o mercado continuar subindo, denote precipitação na tomada de decisão. É nesse estágio que o raciocínio se contamina e desenvolve uma rígida convicção interior (a de que os preços subirão indefinidamente) apesar das evidências contrárias que cercam o ambiente. É quase uma patologia essa obsessão por preços continuamente altos.

Em meados de setembro do ano passado, portanto há pouco mais de um ano, o mercado futuro de açúcar em NY (vencimento outubro/2015) negociava ao equivalente a R$ 1.000 por tonelada FOB, com prêmio de polarização. Dentro de muitas usinas, a ordem que vinha de cima era fixar preço se o mercado negociasse “acima de R$ 1.000 por tonelada”. E assim foi feito. Só para recordar e colocar a análise no contexto histórico, em setembro de 2015 havia mais de 1.000 dias desde a última vez que o mercado de açúcar negociara ao equivalente a R$ 1.000 por tonelada FOB. Foi em 9 de outubro de 2012 (NY a 21.47 centavos de dólar por libra-peso e dólar a R$ 2.0364).

Hoje, o custo de produção de açúcar VHP no Centro-Sul, gira em torno de R$ 1.000-1.050 por tonelada equivalente FOB, com prêmio de pol, enquanto o vencimento março/2017 negocia acima dos R$ 1.680 por tonelada. Quantas vezes, nos últimos dez anos, o açúcar VHP negociou na bolsa de NY a um preço que convertido pela moeda brasileira fosse 60-70% acima do custo de produção? Em duas ocasiões: a primeira em janeiro de 2010 quando o ágio chegou acima de 105% evaporando dois meses depois; a segunda, em fevereiro de 2011 quando o ágio chegou acima de 90% evaporando três meses depois. Ou seja, os ágios evaporam.

Raramente, ou seja, em menos de 2.5% das ocasiões o mercado negociou com ágio acima de 72%. Isso quer dizer que este escriba ficou baixista de uma hora para outra? Não é isso. Apenas gostaria de demonstrar que nenhum mercado sobe indefinidamente e que construir uma sólida média de preço contribui sobremaneira para a saúde e perenidade da empresa. É melhor prevenir que remediar. Muito difícil que uma fixação de preços em reais por tonelada tanto para a safra 17/18 como para a safra 18/19, acima de R$ 1.700 por tonelada, possa dar errado. Por isso, embora acredite que os preços em centavos de dólar por libra-peso podem subir um pouco mais, em reais por tonelada é uma oportunidade que faltam argumentos para deixar passar.

Existem alternativas para quem não quer fixar tudo agora. Pelo menos uma fence (a compra de uma put com a venda de uma call) deveria ser colocada nos livros, pois vai que…. Nos últimos cinco anos, NY negociou na média 18.58% acima do custo de produção. E em dois terços de todos os pregões nesse mesmo período o retorno ficou entre 2% negativo e 38% positivo.

Os fundos devem ser “responsabilizados” por pelo menos uns 300 pontos de alta acima do que deveria ser o padrão que estimávamos antes. Lembrando que dizíamos aqui que nossa meta inicial para o último trimestre de 2016 era de NY negociar a 18 centavos de dólar por libra-peso.

A quarta estimativa de fixação de preços das usinas no mercado futuro de açúcar em NY para a safra 2017/2018 aponta, segundo o modelo desenvolvido pela Archer Consulting, que até o final de setembro/2016 7,17 milhões de toneladas já haviam sido fixadas (27% da exportação estimada). O preço médio apurado foi de 16.88 centavos de dólar por libra-peso. Em safras anteriores, o percentual máximo de fixação acumulada até o mês de setembro foi de 19.72% em 2014/2015. Os preços altamente remuneradores fazem com que as usinas antecipem suas fixações. O percentual só não é maior devido a uma enorme parcela das usinas que estão impossibilitadas de fixar preços por restrições de crédito. O valor médio ajustado de fixação, considerando as NDFs (contratos a termo de dólar com liquidação financeira) é estimado em R$ 1.528,74 por tonelada, ou 66.55 reais por libra-peso, sem prêmio de polarização.

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