Enquanto os touros cochilam

Por Arnaldo Luiz Corrêa – gestor de riscos em commodities agrícolas, especializado no setor sucroalcooleiro, e diretor da Archer Consulting.

Nova Iorque viveu uma semana (encurtada pelo feriado da Independência) de altos e baixos, mas sem nenhuma notícia que validasse toda essa movimentação. O fato é que os fundos continuam quebrando recordes na proporção direta que os analistas “quebram as caras”. Digo isso porque o mercado continua surpreendendo com seu vigor apesar de encerrar a semana com o vencimento outubro cotado a 19.57 centavos de dólar por libra-peso, representando uma queda de quase 27 dólares por tonelada na semana.

Bem longe da correção que eu pensava fosse ocorrer, de mais ou menos uns 300 pontos, perto de 18.50 centavos de dólar por libra-peso, nível que virou objeto de desejo daqueles que pretendem recomprar suas posições ou que perderam a oportunidade algumas semanas passadas. Os demais meses de negociação fecharam em quedas menores quanto mais longo o vencimento, ou seja, 103 pontos de queda no vencimento março 2017 e apenas 9 pontos no vencimento março do ano seguinte.

Note que nos últimos pregões, a posição em aberto das opções negociadas no contrato futuro de açúcar em NY variou de 664 mil contratos para 695 mil, um crescimento de 10.000 lotes nas calls (opções de compra) e 21.000 nas puts (opções de venda). No mesmo período, a volatilidade anualizada das opções passou de 38.1% para 33.9%, no vencimento outubro, um derretimento de 4.2 pontos percentuais.

O que ocorreu? Mais gente vendendo puts para diminuir custo de aquisição. Por exemplo, já que não é possível comprar futuros a 18.50 centavos de dólar por libra-peso no vencimento março/2017, a venda de uma put com preço de exercício de 20 centavos de dólar por libra-peso que negocia a 150 pontos pode ser uma solução. “Ah, mas quem garante que eu vou ser exercido? ”, reclamam os puristas. Bem, se o mercado expirar abaixo dos 20 centavos de dólar por libra-peso, o vendedor da put estará comprado um contrato futuro a 20 centavos para o qual ele ganhou um prêmio de 150 pontos, logo seu custo de aquisição foi 18.50. Se o mercado expirar acima dos 20 centavos ele ainda terá ficado com os 150 pontos no bolso. Esse tipo de estratégia que é adequada para diminui a dor de cotovelo de quem deixou passar a égua da crina dourada lá atrás, certamente fez com que a volatilidade cedesse com tantos vendedores de opções.

Os altistas não precisam ficar preocupados. Embora o mercado esteja preparando uma correção, os fundamentos devem se firmar ainda mais adiante. Continuamos convictos de que o último trimestre deste ano vai elevar os preços próximos de 22-23 centavos de dólar por libra-peso que podem ser potencializados caso haja uma recuperação da credibilidade do Brasil tão logo seja confirmado o impeachment da presidente Dilma Roussef e o real chegar a 3.2000, ou mesmo 3.0000 como apontam alguns economistas mais exaltados. Ora, para obtermos os mesmos R$ 1.550 por tonelada que tem sido perseguido pelas usinas que fixam seus açúcares para a safra 2017/2018, precisaríamos de NY entre 21-22.50 centavos de dólar por libra-peso. Perfeitamente exequível.

Alguns dados importantes para alimentar os touros. A queda no consumo de combustíveis pelo ciclo Otto que em bases anuais caíra 1.5% no início do ano, agora apresenta queda de apenas 0.7%. As exportações de açúcar acumuladas no período que compreende julho/2015 até junho/2016 somam 26.2 milhões de toneladas, um crescimento de 7.5% em relação ao período imediatamente anterior. A exportação de etanol também cresceu: 2.4 bilhões de litros mais do que dobrando em relação ao período anterior. Ou seja, como nós esperávamos um cenário mais parcimonioso nesses volumes, acredito que a necessidade de cana está além da moagem deste ano e existe uma possibilidade crescente de que vamos ter a entressafra mais apertada dos últimos anos com reduzidíssima disponibilidade de produto a partir de janeiro de 2017. Convém não atiçar os touros enquanto eles dormem.

Um executivo do mercado, em tom de desabafo, confessou que “os caras que estão ganhando dinheiro hoje no mercado de açúcar são justamente aqueles que não entendem de mercado”. Leia-se, os fundos. E completa que o déficit não é de 6 milhões de toneladas de açúcar, mas de 24 milhões (adicionadas as 18 milhões de toneladas que os fundos estão long).

Vale a pena observar os contratos de açúcar negociados na BM&F Bovespa. Desde a entrada dos market makers (negociadores que apresentam regularmente ofertas de compra e venda, obrigando-se a comprar e a vender por essas cotações apregoadas) o volume tem crescido e pode ser o primeiro passo para a efetivação desse instrumento tão importante para as usinas, para as indústrias alimentícias e demais participantes do mercado que carecem de um contrato que possa mitigar adequadamente o risco de preço que eles correm no mercado interno.

Frase de autor desconhecido que compartilho com vocês: “o mercado de commodities é estranho. Toda vez que alguém está comprando, alguém está vendendo. E ambos se consideram espertos”.

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