Cautela é sempre bom

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Por Arnaldo Luiz Corrêa – gestor de riscos em commodities agrícolas, especializado no setor sucroalcooleiro e diretor da Archer Consulting.

Mais uma semana de preços altos foi vivida pelo mercado futuro de açúcar em NY. Em três meses vimos o preço médio do açúcar (tomando como base o fechamento do primeiro mês de negociação) passar de 13.31 centavos de dólar por libra-pesao em fevereiro (máxima de 14.61 e mínima de 12.45) para 15.43 centavos de dólar por libra-peso em março (máxima de 16.75 e mínima de 14.12), numa reação que o mercado – e principalmente as tradings – achava que teria encontrado momentaneamente o patamar de preços. Abril acabou por validar esse sentimento e a média caiu para 15 centavos de dólar por libra-peso depois de ter tocado assustadoramente nos 14 centavos de dólar por libra-peso ao longo daquele mês e experimentado o máximo de 16.23. Em maio, outra estilingada passando a média para 16.68 centavos de dólar por libra-peso (máxima de 17.70 e mínima de 15.55).

Dado o comportamento dos spreads durante a última semana estamos assistindo à consolidação do sentimento altista. Dissemos aqui várias vezes que a alta do mercado precisaria ser validada pela combinação de um fortalecimento dos prêmios e dos spreads. Bem, isso está ocorrendo. Os spreads julho/outubro e outubro/março fecharam respectivamente em -3 e zero, comparativamente a -33 e -50 há um mês. Ou seja, o vencimento julho/2016 que negociava a um desconto de 83 pontos há um mês, no fechamento de sexta estava praticamente no mesmo nível de março, com uma apreciação de quase 18 dólares por tonelada. Os prêmios, por sua vez, estão apreciando de forma mais modesta. Saiu negócio para embarque junho/julho com 2 de desconto.

A movimentação do spread mostra preocupação de que não haja a quantidade de açúcar que o mercado esperava para agora, seja em função do atraso nos embarques pelos portos do Centro-Sul, seja pela quantidade de chuva volumosa que se estima para as próximas semanas com reflexo negativo n a moagem, seja pelo rearranjo do livro de futuros das tradings, seja pela compra especulativa dos spreads antecipando toda essa movimentação. Os baixistas estão roendo o que lhe sobrou de unhas.

A sexta-feira encerrou com o vencimento julho/2016 negociando a 18.75 centavos de dólar por libra-peso (o maior preço desde o final de outubro de 2013), um aumento de 123 pontos na semana, ou seja, 27 dólares por tonelada. Todos os spreads ao longo da curva mostram custo de carrego negativo, ou seja, não faz nenhum sentido quem tiver açúcar não se desfazer dele imediatamente. Mas que açúcar? Com as usinas tendo residualmente uns 15% ainda para serem fixados contra o vencimento março/2017, quem precisar de açúcar ou for pego vendido a descoberto corre seriamente o risco de cuspir sangue. Não sei porque me veio à cabeça o filme “O Massacre da Serra Elétrica”.

A curva de preços para o próximo ano, combinando fechamento de NY com a NDF (contrato a termo de dólar liquidado financeiramente) já mostra uma média de 1600 reais por tonelada.

Não podemos esquecer que o mercado está nessa situação também porque as usinas estão bem fixadas. A rolagem dos fundos para o vencimento outubro/2016 está sendo neutralizada pela compra dos spreads por parte das tradings. E se os fundos quiserem continuar adicionando mais compras à sua estratosférica posição que beira os 300.000 lotes, certamente não vão encontrar quem lhes venda (tradings e usinas estão no limite) e o mercado vai dar novos espasmos. Ficar vendido à descoberto neste cenário é pedir para apanhar.

Algumas usinas e mesmo alguns analistas já acham difícil que o volume inicialmente planejado de moagem de cana seja alcançado esse ano. Ouvi de gente muito séria que talvez não cheguemos às 600 milhões de toneladas no Centro-Sul. Ainda é muito prematuro colocar as fichas nessas hipóteses, mas isso demonstra quão sensível e susceptível está o mercado de açúcar com qualquer notícia que possa – mesmo que remotamente – diminuir a disponibilidade de açúcar.

Mas, atenção. O mercado já está devendo uma correção há algum tempo. Nada sobe indefinidamente assim. Vai chegar um momento em que as chuvas vão parar, que a ATR vai melhorar, que o porto vai descongestionar, que o sol vai brilhar e que os fundos vão realizar lucros (US$ 1.4 bilhão). Por isso, como cautela e caldo de galinha não fazem mal para ninguém, convém usar opções para travar um mínimo de rentabilidade em troca de um máximo de retorno. O que não pode é – tendo que fazer alguma coisa nesse momento – não fazer nada.

Segundo o modelo da Archer, até dia 29 de abril de 2016, as usinas estavam fixadas 82,8% das vendas para 2016/2017, ao preço médio de 14,11 centavos de dólar por libra-peso equivalentes a R$ 1.219 por tonelada FOB com prêmio de polarização. O valor médio do dólar obtido pelas usinas foi de R$ 3,7613. Os valores e volumes abaixo estão ajustados pelo novo critério que isola a safra atual das demais, corrigindo a distorção percebida.

Estão abertas as inscrições para o 26° Curso Intensivo de Futuros, Opções e Derivativos Agrícolas a ser realizado nos dias 27, 28 e 29 de setembro de 2016 das 9 às 17 horas em São Paulo – SP. Para mais informações contate priscilla@archerconsulting.com.br. Reserve na sua agenda.

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